O sonho vira uma corporação extremamente lucrativa
Hotel California, de Barney Hoskyns, é uma história da música de Los Angeles durante o período em que a contracultura descobriu quanto dinheiro podia ganhar. Seu elenco chega a ser indecentemente famoso: David Crosby, Stephen Stills, Graham Nash, Neil Young, Joni Mitchell, James Taylor, Jackson Browne, Linda Ronstadt, Eagles e David Geffen circulam por uma rede gigantesca de músicos, empresários, produtores, amantes e figuras de gravadoras. Hoskyns, porém, não está simplesmente organizando anedotas de celebridades. Seu verdadeiro assunto é transformação. A cena comunitária e influenciada pelo folk do sul da Califórnia no fim dos anos 1960 vira a indústria polida de singer-songwriters e country-rock dos anos 1970; intimidade acústica chega às arenas, amizades se transformam em redes profissionais, e idealismo convive com cocaína, riqueza, poder de gestão e vendas gigantescas de discos. Hotel California, dos Eagles, torna-se o destino perfeito porque o título pode ser lido menos como lugar literal do que como um estado de espírito produzido por essa transformação.
Los Angeles depois do Summer of Love
San Francisco domina a imagem popular da contracultura de 1967, mas Los Angeles se desenvolveu sob condições diferentes. A cidade já continha Sunset Strip, grandes estúdios de gravação, gravadoras estabelecidas, indústrias de cinema e televisão, músicos de sessão e uma relação muito mais próxima com o entretenimento comercial. O folk-rock havia florescido com The Byrds, Buffalo Springfield, Love e The Mamas & the Papas antes que a era do singer-songwriter surgisse por completo. No fim dos anos 1960, Laurel Canyon e bairros próximos estavam associados a uma nova rede de compositores e performers, mas Hoskyns toma cuidado para mostrar que eles não criavam um único som uniforme. O que conectava Joni Mitchell, Crosby, Stills and Nash, Jackson Browne e outros era proximidade, amizade, colaboração e uma indústria cada vez mais disposta a vender composição pessoal. A suposta fuga do comércio existia, portanto, a poucos minutos de uma das máquinas de entretenimento mais sofisticadas do mundo.
The Troubadour mostra como uma sala pode virar infraestrutura
The Troubadour em West Hollywood é um dos lugares cruciais do livro porque mostra como cenas musicais se formam por troca social repetida. Um clube faz mais do que receber shows. Compositores ouvem uns aos outros, empresários observam artistas, músicos encontram futuros colaboradores, relacionamentos começam e gravadoras adquirem informação sobre o que está acontecendo antes que o público mais amplo perceba. Isso transforma a casa em parte da infraestrutura da indústria musical, mesmo sem ser uma gravadora. Para a RetroForge, este é um modelo histórico especialmente útil porque explica por que a história de casas de show importa para além de concertos famosos. Uma sala pode moldar carreiras por meio das pessoas que a ocupam repetidamente, e a rede criada ao redor do Troubadour ajuda a transformar a cena solta do sul da Califórnia num ecossistema profissional.
CSN&Y expõe o problema do supergrupo
Crosby, Stills & Nash inicialmente pareceu encarnar a promessa comunitária da cena: três compositores fortes combinando vozes distintivas numa música que podia soar íntima mesmo quando sua escala comercial se tornava enorme. A participação de Neil Young aumentou as possibilidades musicais e tornou a estrutura interpessoal ainda menos estável. A palavra “supergroup” contém boa parte do problema. Músicos chegam com reputações, ambições e identidades artísticas já formadas, deixando ninguém naturalmente adequado ao papel de parceiro júnior. Hoskyns usa as relações ao redor de CSN&Y para mostrar como amizade, ego, criatividade e negócios podem ficar quase impossíveis de separar quando grandes públicos e enormes quantias de dinheiro entram na equação. As tensões não são apenas fofoca colorida; revelam como o ideal de colaboração informal muda quando os participantes também são propriedades comerciais valiosas.
Joni Mitchell mostra que a categoria singer-songwriter podia se expandir em vez de simplificar
A ascensão do singer-songwriter costuma ser contada como uma mudança rumo a música menor e mais íntima depois dos excessos da psicodelia, mas Joni Mitchell complica essa história. Sua composição, afinações alternativas e linguagem harmônica continuamente ultrapassaram qualquer imagem simples de uma performer acústica e confessional solitária. Hoskyns a coloca perto do centro de uma cena em que composição pessoal se tornava cada vez mais comercializável, mas os artistas mais fortes resistiam a ser reduzidos à categoria criada ao redor deles. Essa tensão importa porque o boom de singer-songwriters dos anos 1970 foi ao mesmo tempo desenvolvimento artístico e formação industrial. Gravadoras aprenderam a vender intimidade, enquanto músicos continuaram mudando a linguagem musical dentro da embalagem. Uma história que trata esses dois processos em conjunto é muito mais útil do que uma que simplesmente lista discos sensíveis feitos em casas nas colinas.
David Geffen e Asylum tornam os negócios visíveis
A ascensão de David Geffen e Asylum Records demonstra que empresários, editoras musicais e estruturas de gravadoras não eram forças externas chegando depois para comercializar uma cena inocente. Já estavam incorporados à rede e ajudavam a determinar quais artistas recebiam recursos, visibilidade e poder de negociação. Hoskyns é mais forte quando o leitor consegue ver canções íntimas e estratégia empresarial sofisticada coexistindo no mesmo ambiente sem se anularem. Um disco pode soar confessional e privado enquanto depende de gestão altamente profissional, gravação cara e uma campanha de lançamento cuidadosamente construída. Essa contradição não é uma hipocrisia exclusiva de Los Angeles. Faz parte do funcionamento da música popular, e Hotel California torna a maquinaria excepcionalmente visível.
Eagles transforma cultura regional em produto global
Eagles surge do mesmo mundo interligado por figuras como Linda Ronstadt, Glenn Frey e Don Henley, músicos de country-rock e gestão profissional. Em meados dos anos 1970, o som do sul da Califórnia havia se tornado uma mercadoria internacional capaz de lotar arenas, e Hotel California, de 1976, fornece a Hoskyns um destino simbólico quase perfeito demais. A produção polida, as vendas gigantescas e a corrente temática mais escura podem ser lidas como a cena refletindo sobre o mundo que ajudara a construir. Ainda assim, o simbolismo não deve virar sentença de que tudo o que veio antes era puro e tudo o que veio depois, corrupto. O domínio comercial da banda certamente marca uma mudança de escala, mas habilidade comercial e valor artístico não são mutuamente exclusivos, e a cena anterior nunca esteve livre de ambição, competição ou poder.
A história do Éden perdido merece resistência
É aqui que o enquadramento de Hoskyns fica mais interessante justamente porque o leitor deve resistir a ele. A história do rock adora a narrativa de uma bela cena que começa inocente, descobre dinheiro e cocaína e então perde a alma. A realidade é menos conveniente. Sucesso comercial pode financiar discos ambiciosos; contraculturas iniciais já continham ego, exploração e cálculo profissional; produções polidas posteriores não são automaticamente inferiores a trabalhos mais crus feitos antes da chegada do dinheiro. Hoskyns entende boa parte dessa complexidade, mas o título e a estrutura cronológica naturalmente encorajam uma leitura de queda do paraíso. A RetroForge deve, portanto, apresentar essa forma como argumento do livro, e não como lei objetiva de desenvolvimento cultural. A tensão torna a história melhor quando permanece visível.
O que o livro faz especialmente bem
Indústria e redes sociais são os pontos fortes definidores. Canções, romances, casas, clubes, empresários e gravadoras se sobrepõem até que o leitor consiga ver a cena de Los Angeles funcionando ao mesmo tempo como comunidade e negócio. Hoskyns também dá à história um arco cronológico claro de aproximadamente 1967 a 1976, tornando a transformação mais fácil de acompanhar sem fingir que todos os artistas a vivenciam de maneira idêntica. Sua experiência como crítico musical mantém os discos dentro da narrativa mesmo quando negócios e relacionamentos se tornam dominantes. Por fim, o enorme elenco torna o livro extremamente útil para a interligação interna da RetroForge porque quase toda grande linha leva para fora, rumo a outro artista, casa de show, gravadora ou história de gênero.
Limitações
O elenco amplo significa que algumas pessoas inevitavelmente recebem esboços, e não retratos completos, e resenhas contemporâneas observaram que a quantidade de figuras pode superar a profundidade disponível para cada uma. A estrutura de ascensão e queda também pode exagerar a inocência do canyon inicial e a corrupção da indústria posterior. Leitores interessados principalmente na geografia física e na vida social de Laurel Canyon talvez prefiram Michael Walker, enquanto quem quer uma experiência fortemente ilustrada de história oral deve seguir para Harvey Kubernik. Hotel California funciona melhor quando sua lente específica está clara: é a história de uma cena se tornando uma rede profissional poderosa, não a biografia definitiva de cada músico que passou por ela.
Quem deve ler?
Quem se fascina pela transição do folk-rock do fim dos anos 1960 para a cultura de singer-songwriters e country-rock dos anos 1970 encontrará aqui um dos livros centrais da estante. Ele é particularmente valioso para leitores que querem enxergar a indústria musical, em vez de deixá-la escondida atrás da mitologia dos artistas, porque empresários, gravadoras e relações profissionais continuam fazendo parte da história causal. Leia-o com Laurel Canyon, de Michael Walker, e Canyon of Dreams, de Harvey Kubernik, e o mesmo mundo do sul da Califórnia aparece por três lentes diferentes: indústria, lugar e memória visual/oral.
Nota sobre a edição
A edição americana da Wiley apareceu em 2006, normalmente com cerca de 324–336 páginas, dependendo do formato.
A edição britânica da Fourth Estate usa o subtítulo Singer-Songwriters and Cocaine Cowboys in the LA Canyons, 1967–1976.
São edições da mesma obra central, e não livros diferentes.
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