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Fotograma 035Urgh! A Music War1982
Sala de exibição · Filme 035

Urgh! A Music War

Antologia internacional de performances ao vivo, sem narrador e com uma história de versões notoriamente instável

DireçãoDerek Burbidge
Ano do filme1982
Duração94–96 minutos
PaísEstados Unidos / Reino Unido / França
Seção do arquivoPunk / Pós-punk / New wave / Ska / Reggae / Synth-pop / Documentário musical

Um filme que compreendeu o início dos anos 1980 ao se recusar a explicá-lo

Urgh! A Music War reúne uma quantidade quase absurda de identidades musicais num único documentário. The Police aparece ao lado de Wall of Voodoo, Toyah, Orchestral Manoeuvres in the Dark, Oingo Boingo, Echo & the Bunnymen, XTC, Klaus Nomi, The Go-Go’s, Dead Kennedys, Steel Pulse, Gary Numan, Joan Jett, Magazine, Au Pairs, The Cramps, Pere Ubu, Devo, Gang of Four, X, UB40 e muitos outros.

Um documentário convencional organizaria essa variedade com narração: definiria punk, explicaria pós-punk, apresentaria a música de sintetizadores, contextualizaria o reggae e separaria a new wave americana das cenas britânicas. Derek Burbidge quase não faz isso. Os artistas chegam, tocam e desaparecem.

A recusa torna o filme simultaneamente confuso e extraordinariamente valioso. Ele não diz ao espectador posterior quem entraria no cânone nem quais rótulos de gênero venceriam. Uma influência futura pode receber a mesma atenção imediata que um grupo quase apagado da memória. A antologia preserva algo que as histórias de gênero perdem: o início dos anos 1980 parecia lotado antes de parecer organizado.

A “guerra” do título descreve mais a disputa entre cenas que um conflito literal

A palavra “guerra” dá ao projeto uma identidade confrontadora, mas as bandas não participam de uma única batalha. Elas representam reações sobrepostas a condições musicais, políticas e comerciais diferentes.

O punk britânico já se fragmentara em pós-punk, vertentes anárquicas, formas próximas do gótico e novas ambições pop. Cenas punk americanas surgiram separadamente em Los Angeles, Nova York e outras cidades. Sintetizadores antes ligados ao progressivo e ao experimental entravam no pop conciso. Ska e reggae percorriam a juventude britânica em relações próximas, mas não redutíveis, ao 2 Tone. O filme coloca tudo lado a lado sem fingir uma ideologia comum.

O mundo eletrônico controlado de Gary Numan e a agressividade política dos Dead Kennedys ocupam vocabulários opostos; Klaus Nomi chega com voz operística e imagem distante das convenções do rock. The Cramps puxa para o rockabilly e a distorção de garagem, Steel Pulse carrega o peso político do reggae por outra tradição rítmica, e The Police ainda pertence a uma paisagem pós-punk/new wave em mutação. Juntas, as performances formam um mapa cujas fronteiras ainda não foram desenhadas.

A produção seguiu a música em vez de levá-la a um único local controlado

O AFI registra uma lista incomum de espaços: Santa Monica Civic Auditorium, Whisky a Go Go, California Theatre em San Diego, CBGB e Ritz em Nova York, a arena romana de Fréjus, Lyceum, Hammersmith Odeon, Rainbow Theatre, ICA e Guildhall em Portsmouth. As filmagens começaram em 15 de agosto de 1980 em Santa Monica, durante um pacote ligado às organizações de Miles e Ian Copeland, e seguiram artistas por cidades e países até o outono.

A abordagem trouxe variedade e enormes dificuldades. Michael White declarou, em material resumido pelo AFI, que filmar em tantos locais complicou o projeto e que, retrospectivamente, preferiria uma única casa.

A dificuldade é visível: luz, tamanho do palco e relação com a plateia mudam radicalmente. Alguns artistas aparecem em ambientes teatrais polidos; outros permanecem próximos da cultura de clubes. Para uma fotografia que buscasse unidade perfeita, seriam inconsistências.

Como história, são vantagem. O filme preserva o fato de que essa música não pertencia a uma única sala.

O fosso de câmeras em Santa Monica prova que espontaneidade exigia planejamento industrial

O AFI observa que o Santa Monica Civic Auditorium recebeu um fosso largo entre palco e plateia para as câmeras. O detalhe corrige a mitologia punk e new wave segundo a qual a documentação simplesmente acontecia de forma espontânea.

Urgh! era uma produção profissional cara. Reportagens comerciais citadas pelo AFI estimavam em US$ 1,5 milhão o financiamento da Lorimar. Eram necessários contratos de acesso, posições de câmera, gravação sonora, transporte e autorizações de muitos artistas. Sob a aparência de compilação crua havia intensa coordenação industrial.

A contradição não é hipocrisia. Documentação de grande escala custa caro, sobretudo ao cruzar fronteiras e registrar dezenas de artistas adequadamente.

Parte do valor vem de investir esse dinheiro numa paisagem ainda não canonizada. Seria fácil filmar poucos nomes de arena; a produção apostou na amplitude. O caos dos créditos finais demonstra que a aposta capturou algo genuinamente difícil de organizar.

Michael White descobriu que bandas contra a hierarquia do rock também brigam por tempo de tela

A história de produção do AFI registra tensão entre artistas, representantes e realizadores. White descreveu disputas sobre contratos e favoritismo, além do receio de que outras bandas recebessem tratamento melhor. Os participantes também tinham participação em possíveis lucros.

É uma correção divertida à ideia romântica de cenas unidas contra a velha indústria. Novos movimentos criam hierarquias quase imediatamente. Bandas se preocupam com destaque, metragem, contratos e comparação com colegas mesmo quando rejeitam estruturas comerciais estabelecidas.

A seleção também definiu o que sobreviveu. Segundo White, Talking Heads, Madness e The English Beat foram convidados, mas não participaram; The Human League e The Specials chegaram a ser filmados, porém ficaram fora da montagem porque o material foi considerado inadequado.

As ausências importam. Uma retrospectiva atual talvez considere vários desses nomes essenciais, mas o filme só podia guardar o que produção, permissões e câmera permitiram. É um corte transversal magnífico, não um censo completo. Toda antologia depende de quem aceitou e do que conseguiu registrar.

Klaus Nomi mostra por que a evidência visual pode mudar a história musical

A participação de Klaus Nomi é uma das provas mais valiosas do filme porque sua arte depende fortemente do desenho visual. A voz comunica o alcance extraordinário de contratenor, mas figurino, maquiagem e movimento controlado completam uma identidade feita de ópera, cabaré, ficção científica e performance da Nova York underground. Uma descrição escrita pode fazê-lo parecer novidade; a câmera revela disciplina.

A vantagem reaparece com artistas que não cabiam na imagem padrão de banda. A tecnologia cênica e a presença distante de Gary Numan, a teatralidade de Toyah, os uniformes conceituais do Devo e os arranjos físicos de Oingo Boingo fazem mais sentido quando vistos.

Punk e pós-punk às vezes são apresentados como retorno à simplicidade visual depois do espetáculo progressivo. O filme mostra realidade mais complexa: alguns rejeitaram a grandiosidade de arena, mas foram extremamente deliberados em roupa, movimento, luz e identidade gráfica. A escala mudou; o desejo de construir imagens permaneceu.

As artistas impedem que o filme vire mais uma história punk exclusivamente masculina

The Go-Go’s, Joan Jett, Toyah, Au Pairs, X e outros grupos tornam as mulheres visíveis em papéis musicais diferentes, não como categoria simbólica. O sucesso pop posterior de The Go-Go’s pode ocultar sua posição inicial no ecossistema punk/new wave de Los Angeles. Joan Jett conecta The Runaways à fase dos Blackhearts. Toyah representa uma teatralidade britânica, enquanto Au Pairs ocupa outro mundo de pós-punk político. Exene Cervenka em X lembra que parte da melhor escrita punk nasceu de parcerias criativas mistas, não do modelo do vocalista masculino solitário.

O filme não formula um argumento sobre representação. Simplesmente preserva artistas suficientes para resistir à simplificação. Essa amplitude acidental convence mais que um documentário moderno anunciando diversidade retrospectivamente.

Reggae e ska impedem que “new wave” vire apenas uma história branca de guitarras e sintetizadores

Steel Pulse e UB40 levam o reggae a um programa lembrado sobretudo por punk, pós-punk e new wave. A inclusão importa porque a juventude britânica de 1980 era profundamente moldada por música jamaicana, sound systems, renascimento do ska e relações políticas em torno da raça. Excluir o reggae criaria uma narrativa de gênero mais limpa e uma história cultural menos verdadeira.

“Ku Klux Klan”, do Steel Pulse, torna explícitas as apostas políticas ao abordar violência racista. UB40 oferece outro caminho pelo reggae, ligado a Birmingham e a um contexto operário multiétnico.

O filme não explica essas histórias, mas a montagem cria contato. Passamos de uma cena a outra sem ouvir que a fronteira é absoluta.

A estrutura é especialmente útil junto de Dance Craze. Massot focaliza o 2 Tone de perto; Urgh! se expande até ska e reggae integrarem um campo internacional maior. Em conjunto, os filmes oferecem imagem muito mais útil de 1980.

The Police abre e fecha um filme no qual seu futuro comercial ainda não estava decidido

The Police ocupa posição estrutural privilegiada, aparecendo no início e no fim de versões comuns. Os vínculos familiares de Stewart Copeland com Miles e Ian Copeland, consultores criativos da produção, alimentaram acusações de favorecimento a artistas da rede IRS/FBI. O AFI registra a resposta de White: cerca de um terço das bandas filmadas tinha conexões com a IRS, mas outros grandes nomes também foram convidados.

Independentemente da política industrial, a presença é reveladora. Em 1980, The Police já tinha sucesso, porém sua identidade global de estádio ainda se formava. A mistura de ritmo vindo do reggae, economia punk e composição pop atravessava as categorias do filme. Usá-los como moldura oferece entrada reconhecível sem transformar os demais em variações do grupo. Assim que eles deixam a abertura, a antologia fica muito mais estranha.

A história de duração é confusa porque direitos e distribuição remodelaram o filme

Poucos títulos da Screening Room demonstram tanta instabilidade. O AFI cataloga 104 minutos e registra o lançamento oficial em Los Angeles em 7 de maio de 1982, depois do adiamento dos planos de 1981. Arquivos finlandeses preservam uma versão de 125 minutos. Outras fontes americanas descrevem cortes de cerca de 94–96 minutos, enquanto uma edição doméstica estendida chegou a aproximadamente 124 minutos.

O DVD posterior da Warner Archive criou outra configuração, geralmente catalogada na faixa intermediária dos 110 minutos. Exibições televisivas também variaram, acrescentando ou retirando músicas conforme os direitos.

Não são diferenças triviais. Dez canções ausentes podem eliminar dez artistas e mudar a representação da cena.

A RetroForge não deve fazer uma duração apagar as demais. O filme precisa de tabela de versões. Quem assiste a uma cópia de 96 minutos e lê uma lista de 125 certamente achará que há erro. Há uma diferença — o que é bem mais interessante.

O lançamento atrasado mostrou que a cena se movia mais depressa que a indústria do cinema

O AFI registra que a trilha sonora saiu antes de o filme obter distribuição estável. A Lorimar temia que um pequeno documentário musical fosse esmagado pelos grandes lançamentos de verão, e a estreia planejada para 1981 só chegou oficialmente a Los Angeles em maio de 1982.

O atraso importa porque new wave e pós-punk mudavam em velocidade extraordinária. Um grupo filmado em agosto de 1980 podia ter outra formação, som, roupa e posição comercial quando o público o visse. O filme tornou-se arquivo quase imediatamente.

O problema era agravado porque videoclipe e televisão faziam a identidade visual circular mais rápido que a distribuição de longas. O lançamento da MTV em 1981 acelerou o processo. Em 1982, alguns artistas já pertenciam a outra era visual.

A reputação cult posterior transforma o atraso em vantagem. O filme preserva uma janela anterior à divisão da década entre estrelas, figuras cult, lembranças de um sucesso e histórias especializadas. Todos recebem alguns minutos antes de começar a triagem.

A ausência de narração tornou-se o maior presente do filme

Um narrador gravado em 1982 seria hoje uma das coisas mais envelhecidas do filme. Definições de gênero, piadas e previsões confiantes sobre quem importaria teriam datado. Burbidge evita quase totalmente essa armadilha.

As performances continuam abertas à interpretação. É possível descobrir The Cramps depois de chegar por The Police, reconhecer The Go-Go’s por sua história pop posterior, encontrar Klaus Nomi sem aviso ou seguir uma banda pós-punk familiar até um espaço desconhecido. A falta de explicação transfere responsabilidade ao público. Isso torna Urgh! uma introdução ruim para quem quer uma história clara, mas uma fonte visual primária excepcional.

Nota para assistir e colecionar

Não atribua a Urgh! A Music War uma duração universal. O registro do AFI indica 104 minutos, enquanto versões teatrais e domésticas documentadas vão de cerca de 94–96 minutos a 124–125 minutos; a edição Warner Archive traz ainda outra configuração intermediária. Listas de faixas por versão são indispensáveis, pois cortes menores removem artistas inteiros.