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Guia de álbum clássico

Volume Two

Soft Machine · 1969 · Rock progressivo / jazz rock

Reformado em torno do baixo fuzz de Hugh Hopper, o Soft Machine comprime canções, piadas, sopros, enigmas rítmicos e dois grandes desenhos ocupando lados inteiros em trinta e três minutos que apontam decisivamente do pop psicodélico para o jazz rock.

Lançado em 1969Gravado em fevereiro–marçoDuas suítes contínuas
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O disco

Visão geral

Artista
Soft Machine
Lançamento
1969
Gravado
Olympic Studios, Londres
Trio central
Wyatt, Ratledge e Hugh Hopper
Convidado
Brian Hopper nos saxofones
Produtor
Soft Machine

Por que importa

Um reinício contratual torna-se nova linguagem musical

Volume Two é o momento em que o Soft Machine deixa de soar como trio incomum de pop psicodélico e começa a inventar uma categoria que ainda não tem nome estável. O humor, as canções curtas e os vocais de Robert Wyatt permanecem, mas a chegada de Hugh Hopper muda o centro de gravidade. Seu baixo pode funcionar como riff, drone, distorção e cola estrutural, enquanto a escrita de Mike Ratledge se torna mais intrincada.

Os dezessete títulos do álbum não são dezessete canções isoladas. O primeiro lado é apresentado como Rivmic Melodies e o segundo como Esther's Nose Job. Anúncios curtos, alfabetos e pontes em miniatura alteram o significado das peças mais longas ao redor. A performance contínua torna-se composição: a junção entre células importa tanto quanto qualquer melodia individual.

O álbum também preserva um equilíbrio que o grupo logo deixaria para trás. Wyatt ainda é letrista, cantor e voz cômica, além de baterista; os sopros de Brian Hopper anunciam direção jazzística mais forte; órgão e piano de Ratledge organizam formas cada vez mais exigentes. Third amplia essa direção para quatro lados longos, mas Volume Two torna audível a transição em velocidade humana.

Dezembro de 1968 à primavera de 1969

O trio se reforma sem Kevin Ayers

O Soft Machine havia efetivamente se dissolvido depois de sua segunda turnê americana de 1968. Kevin Ayers saiu, Wyatt permaneceu algum tempo nos Estados Unidos e Ratledge voltou à Grã-Bretanha. Um compromisso restante com a Probe reuniu Wyatt e Ratledge novamente em dezembro, com o ex-road manager e músico dos Wilde Flowers Hugh Hopper assumindo o baixo.

O trio gravou no Olympic Studios, em Londres, durante fevereiro e março de 1969. George Chkiantz fez a engenharia e a banda produziu o álbum. Brian, irmão de Hugh, acrescentou saxofones soprano e tenor, ampliando um grupo sem guitarra cujas principais cores amplificadas eram órgão e baixo fuzz.

Essa nova formação não era simplesmente a da estreia com outro baixista. As canções concisas e lânguidas de Ayers deram lugar aos materiais repetitivos de Hopper e às estruturas extensas de Ratledge. O álbum cumpriu compromissos antigos enquanto abria a rota para o grupo ampliado por sopros que faria Third.

O novo trio e um convidado

Baixo fuzz, órgão cortante e um baterista que ainda canta

Robert WyattBateria e vocais
Mike RatledgeÓrgãos Lowrey e Hammond, piano, cravo e flauta
Hugh HopperBaixo, violão e saxofone alto
Brian HopperSaxofones soprano e tenor convidados
George ChkiantzEngenheiro
Soft MachineProdutor

O duplo papel de Wyatt cria atrito produtivo. Sua bateria impulsiona compassos e transições com urgência física, enquanto sua voz faz as estruturas mais abstratas parecerem teatro privado. Introduções faladas, sílabas cortadas, melodia frágil e personagem absurdo surgem do mesmo intérprete sem se acomodarem num papel convencional de frontman.

Ratledge fornece o maior desenho formal do álbum. O piano esclarece temas, o órgão vira instrumento principal distorcido e aparições momentâneas de flauta mudam o ar ao redor dos sopros. Esther's Nose Job demonstra como suas células escritas conseguem sustentar longa sequência sem depender de um centro de verso e refrão.

Hugh Hopper dá à banda reformada seu chão e sua granulação. O baixo costuma ser processado agressivamente, fazendo as notas graves se comportarem como outra voz de teclado. Seu violão em Dedicated to You but You Weren't Listening revela outro compositor, enquanto os dois irmãos Hopper criam combinações de sopros muito mais amplas do que sugere o número de integrantes do trio.

Sonoridade e construção

Forma contínua construída por colisão, não por polimento

Rivmic Melodies se comporta como programa de rádio de uma instituição inventada. Anúncios e alfabetos emolduram peças que transitam entre ritmo irregular, repetição modal, canção e absurdo deliberado. O lado permanece contínuo, mas continuidade não significa suavidade: cada corte muda as regras.

Hibou, Anemone and Bear é a primeira grande arena instrumental. Figuras de teclado de Ratledge, baixo de Hopper e o tempo inquieto de Wyatt criam uma trama, não uma base de acompanhamento. Os sopros acrescentam cor linear sem transformar a performance em jazz convencional liderado por metais.

Dada Was Here e Have You Ever Bean Green? mantêm palavras na música, mas a linguagem é tratada como som, trocadilho e gesto social. Wyatt consegue tornar uma frase minúscula íntima ou ridícula. Sua fragilidade vocal impede que a complexidade do álbum vire exibição acadêmica.

Esther's Nose Job é mais concentrada arquitetonicamente. Temas chegam, são interrompidos e retornam em ambientes alterados. Sinos de carro de bombeiros, escrita incisiva do conjunto, explosões de saxofone e pressão dos teclados fazem a suíte parecer urbana e mecânica, enquanto a curta passagem Dedicated to You abre por um instante um espaço acústico.

A gravação privilegia presença, não luxo. Baixo fuzz e órgão podem disputar a mesma faixa de frequência, pratos fulguram, sopros entram em ângulos duros e as edições permanecem perceptíveis. Esses atritos não são defeitos do desenho; são o material audível do qual os dois lados do álbum são montados.

Guia de faixas

Dezessete células nomeadas dentro de dois organismos maiores

01

Pataphysical Introduction, Part I

Wyatt recebe o ouvinte em nome de uma orquestra oficial imaginária, substituindo a cerimônia de astro do rock por paródia institucional. A referência à patafísica torna soluções inventadas e regras absurdas parte do método operacional do álbum.

A miniatura é um limiar, não uma canção independente. Sua formalidade simulada avisa que títulos, vozes e transições serão instrumentos estruturais.

02

A Concise British Alphabet, Part I

O alfabeto é reduzido a um acontecimento ofegante de dez segundos. Um sistema concebido para organizar a linguagem vira performance, ritmo e piada.

Sua brevidade extrema aguça a entrada da peça mais longa que vem depois. O Soft Machine torna cômica a própria escala.

03

Hibou, Anemone and Bear

Três substantivos sem relação dão título a um instrumental substancial cuja identidade vem de pulsação e interação, não de ilustração. O nome fantasioso se recusa a explicar a música.

Teclados, baixo, bateria, flauta e saxofone atravessam padrões assimétricos com concentração feroz. É a afirmação inicial mais clara do conjunto de jazz rock que esse trio poderia se tornar.

04

A Concise British Alphabet, Part II

O alfabeto retorna, agora funcionando como corte de filme. A repetição converte a piada original num marcador dentro da suíte.

Como a música ao redor ficou mais densa, a mesma ideia minúscula parece menos introdução e mais interrupção deliberada.

05

Hulloder

Uma saudação distorcida torna-se personagem vocal compacto. As palavras chegam deformadas por sotaque, velocidade e tratamento de estúdio, até dizer olá soar como sintonizar uma máquina estranha.

O ritmo não para para apresentar a piada. Voz e instrumentos a conduzem diretamente para a célula seguinte.

06

Dada Was Here

Hopper e Wyatt usam fragmentos multilíngues e declaração lúdica para transformar a história da vanguarda em fala cotidiana. O dadaísmo não é descrito; é encenado pela justaposição.

Uma base repetida deixa as frases de Wyatt pairarem entre canto e recitação. A aparente leveza esconde controle cuidadoso do tempo.

07

Thank You Pierrot Lunaire

O título acena para uma figura modernista, enquanto a música mal oferece tempo suficiente para o agradecimento. A alta cultura é reconhecida e gentilmente perfurada no mesmo gesto.

Sua posição mantém Rivmic Melodies avançando por referências sem se tornar palestra. A miniatura é pontuação com rosto melódico.

08

Have You Ever Bean Green?

Uma pergunta em forma de trocadilho recorda a ligação americana da banda com a Jimi Hendrix Experience, enquanto transforma experiência em cor, comida e pertencimento. A interpretação de Wyatt torna inseparáveis afeto e absurdo.

A canção é concisa, mas emocionalmente calorosa. Depois de várias piadas sobre sistemas e arte, soa por um instante como mensagem enviada a amigos ausentes específicos.

09

Pataphysical Introduction, Part II

A voz oficial retorna para reenquadrar o que o ouvinte acabou de ouvir. A repetição faz a instituição inventada parecer estranhamente persistente.

Como último marcador falado antes de Out of Tunes, prepara o lado para perder a ordem que fingiu impor.

10

Out of Tunes

O título trata o erro musical como destino. Motivos anteriores e hábitos do conjunto se afrouxam até estar fora da afinação virar outra forma de arranjo.

Flauta, sopros e seção rítmica puxam a moldura, encerrando Rivmic Melodies com movimento, não com resolução convencional.

11

As Long as He Lies Perfectly Still

Ayers é retratado por observação afetuosa e provocadora. Referências musicais e verbais ao material anterior dele no Soft Machine transformam a ausência em algo com que a nova formação pode brincar, em vez de ocultar.

A canção abre o segundo lado com melodia reconhecível antes que Esther's Nose Job se torne mais fragmentada. É ao mesmo tempo despedida e porta composicional.

12

Dedicated to You but You Weren't Listening

O título de Hopper transforma dedicação em comunicação fracassada. Wyatt canta sobre formas incomuns do violão de Hopper, expondo uma superfície delicada raramente ouvida no restante do disco.

Sua privacidade importa dentro da suíte maior. Um breve endereçamento humano interrompe a maquinaria antes que o conjunto acelere novamente.

13

Fire Engine Passing with Bells Clanging

Ratledge converte um acontecimento urbano em movimento comprimido. O título é quase uma instrução sobre como ouvir a linha veloz e as colisões luminosas.

Teclado e percussão geram alarme sem imitar uma sirene literal. A peça lança a sequência instrumental mais estreitamente conectada da suíte.

14

Pig

Um título direto de uma palavra acompanha argumento denso e breve do conjunto. As palavras de Wyatt e a composição de Ratledge favorecem caráter pelo ataque, não pela narrativa.

Os sopros adensam o trio e a bateria mantém as mudanças incisivas. O segmento parece maior que sua duração porque cada gesto chega sob pressão.

15

Orange Skin Food

O título surreal une cor, textura e apetite sem resolvê-los numa cena. A repetição instrumental dá à frase um ambiente físico imaginado.

Os saxofones dos irmãos Hopper acrescentam linhas paralelas ásperas ao redor do tema de Ratledge. O baixo fuzz garante que a escrita para sopros nunca flutue para longe do corpo elétrico.

16

A Door Opens and Closes

O título nomeia uma transição, e o segmento cumpre exatamente essa função dentro da suíte. Um espaço musical aparece, muda de forma e desaparece antes de virar cômodo próprio.

Em vez de disfarçar a junção, o Soft Machine lhe dá um rótulo. A arquitetura torna-se parte do drama da escuta.

17

10:30 Returns to the Bedroom

O final traz um horário e um lugar privado para música que muitas vezes soou institucional ou pública. O retorno sugere que o longo desvio deu a volta até um ponto de origem comum.

Os temas se reúnem num encerramento vigoroso conduzido por ritmo, órgão e sopros. A suíte se resolve pelo reconhecimento acumulado, não por explicação cantada final.

Não é um conceito narrativo

Jogos de linguagem, memória e autodefinição musical

Volume Two tem duas estruturas nomeadas que ocupam lados inteiros, mas nenhuma narrativa contínua. Rivmic Melodies se comporta como sequência de transmissões de uma academia inventada; Esther's Nose Job é suíte musical cujos títulos sugerem personagens, objetos e transições sem formar um enredo.

A linguagem é repetidamente medida, danificada e reconstruída. Um alfabeto vira percussão, saudações se tornam estranhas, dedicatórias não alcançam seu ouvinte e referências à alta arte desabam em piadas. Wyatt e Hopper tratam o inglês como material que pode ser editado como fita.

O álbum também examina a identidade do grupo. Ayers é interpelado depois de sair, os irmãos Hopper introduzem uma ligação familiar e uma orquestra oficial imaginária fala por um trio muito real. O Soft Machine se define não por manifesto, mas fazendo materiais incompatíveis funcionarem juntos.

Anatomia mecânica

A máquina humana adquire um corpo

A capa internacional apresenta uma figura humana montada com partes de aparência mecânica, mineral e orgânica. Enquanto o sistema giratório de engrenagens da estreia convidava à manipulação física, Volume Two dá à máquina um corpo ambíguo.

Esse híbrido é contraparte visual adequada à música. Voz, sopros, distorção elétrica e notação disciplinada não são inteiramente suaves nem inteiramente mecânicos. A figura parece construída, mas seu rosto humano impede o mecanismo de se tornar impessoal.

Os dois lados do álbum fornecem a informação mais importante da embalagem. A indexação digital posterior divide a obra em dezessete seleções convenientes, mas o desenho original pede ao ouvinte que experimente dois arcos ininterruptos.

O lançamento de 1969

Uma estreia britânica que na verdade é o álbum número dois

Volume Two apareceu em 1969 e foi o primeiro álbum do Soft Machine lançado no país de origem da banda. A estreia havia circulado inicialmente nos Estados Unidos, no Canadá e na França, tornando o título numerado excepcionalmente literal para ouvintes britânicos que não haviam recebido Volume One como álbum doméstico.

A crítica da época e a posterior identificaram de modo consistente a maior integração deste disco. Sua brevidade, humor e vocais o distinguem do trabalho majoritariamente instrumental que viria, mas a sofisticação de Esther's Nose Job tornou inequívoca a direção da viagem.

O álbum não precisou de um hit convencional para perdurar. Sua apresentação contínua transformou pequenas canções e fragmentos experimentais num programa completo, oferecendo a ouvintes posteriores um ponto de entrada compacto para a cena de Canterbury.

Rumo a Third

A dobradiça entre a canção underground e o jazz elétrico

Volume Two é a dobradiça essencial no catálogo do Soft Machine. As canções psicodélicas da estreia ainda são audíveis, enquanto a linguagem de baixo de Hopper, a forma extensa de Ratledge e os sopros acrescentados levam diretamente a Third.

Sua influência não é apenas harmônica ou técnica. A combinação de autoironia, canto vulnerável e escrita instrumental difícil ofereceu modelo a grupos posteriores de Canterbury que podiam ser virtuosos sem adotar a grandiosidade do rock.

A apresentação de março de 1969 no Paradiso mostra como o álbum podia naturalmente se tornar um único set contínuo ao vivo. À medida que ficou mais difícil para Wyatt combinar os vocais com partes exigentes de bateria, o futuro instrumental da música já surgia no ato de executar essas canções.

Qual edição?

Respeite as viradas de lado e as junções internas

Programa original em dois ladosDezessete títulos agrupados como Rivmic Melodies e Esther's Nose Job; o primeiro contato preferível.
Edição dupla da Big Beat de 1989Volume Two reunido com The Soft Machine num CD, preservando juntos os dois primeiros álbuns de estúdio.
Live at the ParadisoO concerto oficialmente lançado de março de 1969 apresenta o material de Volume Two como intensa performance contínua do trio.

Escolha uma edição que preserve os dezessete índices, mas não use reprodução aleatória. O índice é um mapa dentro de dois lados contínuos, não prova de que cada miniatura foi concebida para o isolamento.

A edição de dois álbuns da Big Beat é historicamente útil porque a formação e as prioridades mudam de imediato no ponto médio. Ouça o baixo melódico e as canções de Ayers darem lugar ao fuzz, à repetição e às formas mais elaboradas de Ratledge com Hopper.

Depois de conhecer o álbum de estúdio, ouça a apresentação do Paradiso. A dificuldade de Wyatt para cantar enquanto executa as partes de bateria desloca o equilíbrio para a força instrumental e demonstra como Third pôde crescer desse material.

Um percurso de escuta

Ouça primeiro as piadas; depois mapeie a arquitetura

  1. Primeira audição: Toque cada lado original sem interrupção e deixe as junções se registrarem antes de estudar os títulos.
  2. Segunda audição: Acompanhe o baixo de Hugh Hopper como riff, drone, distorção e ponte sob as seções curtas.
  3. Terceira audição: Compare a voz simuladamente oficial de Wyatt com o canto privado de Dedicated to You.
  4. Depois continue: Passe a Third para ouvir a forma de lado inteiro tornar-se a escala dominante do álbum e os sopros se tornarem permanentes.

Trilha de pesquisa

Fontes e leituras adicionais

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