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Fotograma 010Wattstax1973
Sala de exibição · Filme 010

Wattstax

Retrato de Stax e da vida negra em Los Angeles que usa o concerto do Coliseum como uma camada entre entrevistas, comédia e apresentações comunitárias

DireçãoMel Stuart
Ano do filme1973
Duração110 minutos
PaísEstados Unidos
Seção do arquivoSoul / Funk / História cultural negra / Documentário de concerto

O Coliseum é enorme, mas o filme sempre escapa dele

Em 20 de agosto de 1972, mais de cem mil pessoas ocuparam o Los Angeles Memorial Coliseum para sete horas de artistas da Stax por ingresso de um dólar. Isaac Hayes, Staple Singers, Rufus e Carla Thomas, Albert King, Bar-Kays, Eddie Floyd, Luther Ingram e outros participaram num evento ligado ao Watts Summer Festival e aos sete anos do levante de 1965.

Essa escala bastaria a um filme-concerto convencional.

Wattstax, de Mel Stuart, recusa-se a ficar satisfeito.

O filme deixa o estádio e percorre Los Angeles negra. Moradores falam de trabalho, racismo, relações, sexo, casamento, dinheiro e pressão diária. Richard Pryor aparece em material separado, convertendo comédia em comentário social. Há música em igrejas, clubes e bairros além do palco.

A estrutura muda o significado do público.

Num documentário comum, multidão prova popularidade. Aqui, as pessoas do Coliseum pertencem a uma comunidade que existe antes e depois do evento; o filme abre portas do espetáculo para a vida cotidiana.

Por isso ultrapassou o apelido frequente.

Woodstock negro” explica quantas pessoas cabem no quadro.

Não explica quase nada mais.

Sete anos depois de Watts, celebrar não apaga a memória

O concerto se ligava conscientemente aos acontecimentos de agosto de 1965, após anos de discriminação, desigualdade, segregação habitacional e conflito policial. “Motim”, “levante” e “rebelião” colocam ênfases diferentes em causas e agência.

Em 1972, as condições subjacentes não haviam desaparecido.

Al Bell concebeu Wattstax como celebração da cultura negra e benefício comunitário. O AFI registra apoio a anemia falciforme, Martin Luther King Jr. Hospital e futuros festivais; o Stax Museum destaca o preço simbólico de um dólar.

O evento vive entre comércio e comunidade.

Stax era gravadora e promover seu elenco era marketing. Ao mesmo tempo, sua identidade nascera da música negra num país de estruturas profundamente desiguais. Levar o catálogo ao Coliseum podia ser divulgação, declaração cultural e arrecadação simultaneamente.

Wattstax não exige que os motivos se anulem.

A indústria está presente porque tornou o evento possível.

O bairro está presente porque sem ele o evento significaria outra coisa.

Memphis chega a Los Angeles e descobre que a plateia tem voz própria

Stax pertencia a Memphis, cuja história musical foi moldada por gospel, R&B, soul sulista, segregação, colaboração interracial e política dos direitos civis.

O Coliseum levou esse mundo a Los Angeles em escala gigantesca.

Staple Singers trouxeram autoridade gospel; Rufus Thomas transformou público em coreografia; Carla Thomas ligou aos primeiros sucessos; Bar-Kays conduziram Stax ao funk dos anos 1970; Albert King deu peso blues; Isaac Hayes personificou ambição cinematográfica e orquestral.

Um filme mais fraco trataria o público como prova de conquista de mercado.

O de Stuart deixa Los Angeles responder.

Entrevistas de rua permitem que pessoas descrevam discriminação, desemprego, romance, gênero e sexo. Respostas engraçadas, dolorosas e contraditórias impedem que a comunidade vire símbolo político único.

Quem compra os discos não é representado por gráficos de vendas.

Tem opiniões.

Essa decisão simples amplia radicalmente o documentário.

Richard Pryor transforma o riso em outra forma de testemunho

Richard Pryor não se apresentou no concerto; o AFI registra que suas cenas foram filmadas separadamente num bar.

A distinção é historicamente importante e editorialmente brilhante.

Pryor não é mestre de cerimônias, mas contraponto ao espetáculo público. Sua comédia atravessa raça, masculinidade, vergonha, sexualidade e sobrevivência sem embalagem respeitável.

O humor não alivia o documentário no sentido comum.

Ele o afia.

Depois da multidão e do orgulho coletivo, Pryor reduz o quadro a uma pessoa descrevendo a dor e o absurdo da vida social. Declaração pública e vulnerabilidade privada se interrompem.

Isso evita celebração corporativa triunfalista. O concerto prova que Stax pode lotar um grande estádio; Pryor e as ruas perguntam como é a vida depois que todos voltam para casa.

A resposta é mais engraçada, dura e complexa que qualquer slogan.

Parte da melhor música do filme nunca foi tocada no Wattstax

A geografia do documentário é mais livre do que o título sugere.

O AFI registra Emotions numa igreja, Johnnie Taylor num clube e Little Milton num bairro. O longa também não preserva as sete horas em ordem completa.

Essas escolhas fortalecem o filme e criam risco de catálogo.

Uma canção em Wattstax não foi necessariamente tocada no concerto de 20 de agosto.

Stuart e os montadores não buscavam um box visual oficial, mas um retrato no qual diferentes espaços musicais negros de Los Angeles conversam.

O estádio representa escala pública.

A igreja carrega tradições sagradas e comunitárias.

O clube cria outra intimidade.

A rua oferece fala em vez de performance.

Reunidos, esses espaços fazem “filme-concerto” parecer uma descrição insuficiente: a música organiza o filme, mas o tema é muito mais amplo.

As pessoas atrás das câmeras também pertencem à história

Uma das histórias produtivas mais importantes está fora do quadro.

O AFI registra reportagens de equipes compostas majoritariamente por técnicos afro-americanos. O ensaio de Al Bell para a Library of Congress destaca a criação de oportunidades numa indústria marcada por exclusão sindical e de contratação.

Isso muda a discussão sobre representação.

Um filme pode mostrar artistas e públicos negros enquanto mantém controle branco. Wattstax tentou alterar também a participação na produção; câmera, som e trabalho técnico criam carreira e acesso, não apenas imagens.

O documentário registra presença cultural negra de duas formas.

O filme preserva artistas, moradores e público.

A produção integrou uma luta por quem podia fazer cinema americano.

Isso merece mais que uma curiosidade lateral.

Isaac Hayes prova que direitos autorais podem reescrever a realidade documental

A história de versões contém um dos exemplos mais estranhos do arquivo de como direitos legais alteram um filme histórico.

O AFI registra que a estreia em Los Angeles incluía Hayes cantando «Theme from Shaft» e «Soulsville». A MGM contestou direitos ligados a Shaft e o lançamento geral mudou.

Novo material de Hayes foi filmado no início de 1973, retornando ao Coliseum e usando figurantes para simular público de concerto.

Assim, um documentário de 1972 possui versões em que parte do evento aparente foi reconstruída depois porque a música original não podia ser usada.

Não é pequena diferença de colecionador.

Muda o estatuto ontológico da imagem.

Uma versão mostra o que aconteceu no concerto; outra pode mostrar Hayes no mesmo lugar numa filmagem encenada posterior, montada dentro do dia anterior.

Por isso história de versões é história do filme. A lei pode mudar aquilo que futuros espectadores acreditam estar vendo.

Para a RetroForge, o caso mostra que direitos não estão fora da obra; às vezes a remodelam fisicamente.

Jesse Jackson, «I Am Somebody» e a linguagem do evento

O líder dos direitos civis Jesse Jackson aparece com destaque, inclusive na invocação «I Am Somebody».

Sua presença torna impossível tratar as intenções políticas como interpretação posterior. Orgulho negro, identidade comunitária e linguagem dos direitos civis foram colocados dentro do evento.

Mesmo assim, Wattstax não vira comício com intervalos musicais.

A política atravessa performance, roupa, humor, entrevistas, local, ingresso de um dólar, história de Watts, marca Stax e mais de cem mil espectadores negros ocupando o Coliseum.

O filme é melhor quando as camadas permanecem simultâneas.

Celebra sem fingir que resolveu desigualdade; promove Stax e mostra vidas mais complexas que fandom; coloca declaração política ao lado de piadas íntimas; honra a comunidade sem lhe atribuir uma opinião única.

Essa amplitude mantém o filme vivo.

Um título do National Film Registry que é mais que cápsula do tempo

A Library of Congress incluiu Wattstax no National Film Registry em 2020, reconhecendo valor muito além das performances sobreviventes.

Preserva a ambição da Stax, Pryor antes do estrelato cinematográfico, Los Angeles negra sete anos após o levante, direitos civis em nova chave popular, esforços de trabalho negro atrás da câmera e uma história de versões alterada pela propriedade legal.

Acima de tudo, compreende que uma multidão não é abstração.

O filme vai de mais de cem mil pessoas a uma voz, do estádio ao bar, do esplendor orquestral de Hayes a alguém na rua explicando uma relação comum.

A escala nunca apaga a especificidade.

É conquista rara em qualquer documentário e poderosa num filme sobre um dos maiores encontros musicais da época.

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