O The Smoke surgiu de grupos de R&B de Yorkshire, mudou-se para Londres como o quinteto Shots e virou um quarteto antes de gravar a canção que o define. “My Friend Jack” condensou guitarra fuzz, harmonias vocais próximas e sugestão psicodélica num single de três minutos. Chegou apenas ao 45º lugar na Grã-Bretanha, mas subiu ao 2º na Alemanha Ocidental, onde o grupo encontrou o público que lhe fora negado em casa.
Esse sucesso continental produziu uma discografia incomum. It’s Smoke Time, montado a partir de gravações de 1966 e lançado pela Metronome em 1967, saiu na Alemanha, não na Grã-Bretanha. O álbum mostra que o The Smoke não era apenas o veículo de um refrão provocador: seu alcance ia do freakbeat pesado ao pop melódico, com arranjos concisos mantendo unidos os diferentes estilos.
Carnaby Street em 1968, o ambiente mod e psicodélico de Londres que cercava o The Smoke.Foto: Roger W / Wikimedia Commons · Licenciada sob CC BY-SA 2.0. Convertida para WebP nesta página.
Formação e história
O baixista John “Zeke” Lund, o guitarrista Mal Luker e o baterista Geoff Gill haviam tocado no Tony Adams and the Viceroys; o cantor Mick Rowley e o guitarrista base Phil Peacock vinham do Moonshots. Juntos, tornaram-se o Shots. Uma matéria contemporânea da Record Mirror de outubro de 1965 relaciona os cinco integrantes, identifica Alan Brush como financiador e promove a estreia pela Columbia, “Keep a Hold of What You’ve Got”. Mais tarde, Peacock saiu, deixando Rowley, Luker, Lund e Gill rebatizarem o grupo como The Smoke.
Trabalhando com o produtor independente Monty Babson, o quarteto gravou o material que se tornaria It’s Smoke Time durante 1966. A Columbia lançou “My Friend Jack” na Grã-Bretanha no início de 1967. As imagens de cubos de açúcar levaram a BBC a parar de tocá-la; o single permaneceu três semanas na parada britânica e chegou ao 45º lugar. O lançamento alemão da Metronome teve trajetória muito diferente: entrou na parada em maio e atingiu o 2º lugar. A demanda de lá levou ao álbum exclusivo da Alemanha e manteve trabalhos em televisão e turnês no continente.
Os discos seguintes não repetiram esse sucesso, e o quarteto estável aos poucos deu lugar a lançamentos com diferentes combinações de seus integrantes e músicos externos. Lund, Luker e Gill se vincularam ao Morgan Studios; Gill também entrou no Fickle Pickle. Uma nova versão de “My Friend Jack”, de 1976, e uma regravação do material do álbum complicaram ainda mais as reedições posteriores; por isso, a data de gravação importa ao percorrer o catálogo.
Sonoridade e estilo
As melhores gravações do The Smoke combinam o impulso rápido de uma banda mod de R&B com um tratamento de guitarra singularmente vívido. O fuzz e o tremolo de Luker fornecem textura sem afrouxar a batida; Lund e Gill mantêm o ritmo compacto, enquanto o vocal principal de Rowley é reforçado por harmonias luminosas do grupo. “My Friend Jack” funciona porque seu tema estranho permanece contido numa estrutura pop econômica.
O álbum amplia esse projeto em vez de repeti-lo doze vezes. “Waterfall” põe melodia e harmonia em primeiro plano; “You Can’t Catch Me” e “High in a Room” recuperam um ataque mais pesado de guitarra; “If the Weather’s Sunny” e “I Wanna Make It with You” se inclinam para um pop britânico mais leve. O contraste revela uma banda formada antes que psicodelia se tornasse seu rótulo. Os efeitos acrescentam cor, mas os arranjos ainda dependem da precisão de banda beat, de respostas instrumentais curtas e de refrões feitos para chegar depressa.
Álbuns essenciais
1967
It’s Smoke Time
Metronome · Lançamento original de 1967
O único álbum de estúdio da fase original do The Smoke reúne doze interpretações compactas gravadas em 1966. “My Friend Jack” é o centro evidente, mas a sequência impede que engula o disco: “Waterfall” revela o lado melódico do grupo, “You Can’t Catch Me” aguça a aresta das guitarras, e “High in a Room” transforma outra imagem de estado alterado em pop ágil. O segundo lado passa por harmonias ensolaradas, ritmo derivado do R&B e arranjos vocais cada vez mais refinados. Como a Metronome lançou o LP apenas na Alemanha, ele se tornou ao mesmo tempo documento de uma banda britânica e artefato do mercado continental que a sustentou.
Faixas essenciais: My Friend Jack · Waterfall · You Can’t Catch Me
A pré-história começa com o single do Shots de 1965, “Keep a Hold of What You’ve Got”, tendo “She’s a Liar” no lado B. Ele registra o quinteto como grupo de R&B mais pesado antes da saída de Peacock. Depois de It’s Smoke Time, “Have Some More Tea” leva guitarra e bateria a um ataque mais pesado, à maneira do Who, enquanto a posterior “Utterly Simple” — escrita por Dave Mason, do Traffic — situa o grupo num arranjo psicodélico mais espaçoso. “Sydney Gill”, lançada no outro lado, é uma das composições mais ambiciosas do baterista Geoff Gill.
As listas de faixas das coletâneas exigem cuidado. Algumas acrescentam gravações do Shots, singles posteriores, material lançado sob o pseudônimo Chords Five, as regravações de 1976 ou grupos sem relação que usavam o mesmo nome. Para o quarteto original, as matrizes do álbum de 1966 e a sequência de singles de 1967–68 oferecem o caminho mais claro; o trabalho posterior é mais útil quando os integrantes e a data de gravação estão identificados.
A história do The Smoke resiste a uma interpretação puramente britânica da psicodelia britânica. “My Friend Jack” foi uma entrada modesta de três semanas na parada de seu país e um sucesso de 2º lugar na Alemanha Ocidental; o álbum correspondente existiu porque o mercado alemão o queria. Essa divisão explica por que um grupo com raízes em York e radicado em Londres pode parecer central à sonoridade freakbeat e, ao mesmo tempo, estranhamente ausente da narrativa habitual dos álbuns britânicos.
As próprias gravações justificam a atenção contínua. O quarteto não abandonou a disciplina de banda beat quando as letras e os timbres de guitarra se tornaram psicodélicos. Seu melhor trabalho mantém ganchos, harmonias e pressão rítmica em primeiro plano, fazendo de “My Friend Jack” uma ponte entre R&B mod, freakbeat e pop psicodélico conciso, não uma novidade isolada.
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